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Artigo: O desafio da reconstrução

09/04/2026

Autor: Compliance

Por Rafael Sacchi

A disponibilização para este ano do Dnit de R$ 1,9 bilhão para duplicações, conservaçãoe obras de reconstrução traz um fôlego necessário para o setor. De outra parte, a realidade operacional e política impõe barreiras que exigem vigilância constante das entidades de classe, como o SICEPOT e a Aneor.

O fato é que a gestão desses recursos é delicada. Há uma expectativa de R$ 800 milhões a R$ 900 milhões focados exclusivamente em concluir recuperações emergenciais. Entretanto, o setor sabe que o montante é o mínimo para garantir a manutenção das rodovias federais. Em um ano eleitoral, marcado por um déficit fiscal crescente, o receio é que os empenhos fiquem apenas no papel. A liberação ocorrerá em cotas, e o papel das entidades será cobrar o empenho efetivo. A história recente nos ensinou que a “notícia boa” só se concretiza quando o recurso chega ao canteiro de obras, evitando que os projetos sejam interrompidos por falta de fluxo financeiro.

No âmbito estadual, as obras estão ganhando ritmo: a previsão é que 80% a 90% dos projetos estejam em execução nos próximos dois meses. Contudo, o caminho até aqui foi mais árduo do que o previsto. A tentativa de agilizar projetos básicos e executivos esbarrou em um rigor excessivo dos órgãos de controle, como o Tribunal de Contas. Embora o zelo pelas contas públicas seja legítimo, o momento atípico do nosso estado demandava prioridade à celeridade. O excesso de preciosismo burocrático gerou percalços que atrasaram cronogramas vitais.

Apesar dos atrasos, o horizonte para os próximos 18 meses é positivo. Estamos projetando obras mais robustas e estruturadas, capazes de resistir a eventos climáticos extremos que, como vimos, não podem mais ser ignorados. Nos municípios, o esforço é visível, mas limitado pela capacidade financeira. Em Porto Alegre, a modernização das 23 casas de bombas e a ampliação dos diques — agora com cotas superiores às antigas — representam um avanço real na macrodrenagem. Cidades como Canoas e São Leopoldo também buscam apoio federal e estadual para reforçar sua segurança hídrica.

A fragilidade, todavia, reside no repasse de verbas. A demora do estado e da União em transferir recursos sufoca as empresas, especialmente as que atuam de forma orgânica e não possuem grandes contratos externos para compensar o atraso nos pagamentos. Para além da política, o setor enfrenta crises internas de produção. Falta mão de obra pesada. No nível técnico, engenheiros experientes já estão absorvidos pelo mercado, evidenciando a necessidade urgente de atrair estudantes para a área. Já com relação a materiais e equipamentos, com a Selic em patamares elevados, o acesso ao financiamento para aquisição de materiais tornou-se um impeditivo devido ao custo do crédito.

Em um momento de reconstrução, o orçamento existe, as obras estão começando a rodar e a engenharia está pronta para entregar estruturas mais robustas. No entanto, o sucesso desta jornada depende de menos burocracia, mais pontualidade nos pagamentos e um olhar atento das entidades para que o recurso público se transforme, de fato, em asfalto, concreto e segurança para a população.

Artigo de Rafael Sacchi, Diretor Presidente da RGS Engenharia e Presidente do SICEPOT -RS na revista Infra RS de Março / Abril / Maio de 2026.

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